Terça-feira, Maio 6, 2008

UM MARAVILHOSO ACTO DE AMOR

Nos dias de hoje, torna-se difícil encontrar exemplos de Amor altruísta, verdadeiro e profundamente nobre numa sociedade notoriamente materialista. A entrega a um Ideal, a algo que nasce do profundo do nosso Ser com um Amor transcendente e sublime, parece escassear no meio do Amor terreno, opaco e nitidamente passageiro.

Quando caminhamos no meio de uma floresta, desbravando caminhos desconhecidos rumo à nossa meta, constatamos várias vivências e conhecemos diferentes pessoas, povos e culturas. Notamos que a diversidade encerra no seu intimo uma maravilhosa harmonia conseguida pelos olhos de quem a sente e observa. Se olhamos essa diversidade com Amor ela irá traduzir-se em unidade, se a olharmos com ódio e desinteresse torna-se-á díspar e antagónica. O Amor é uma lei que toda a Humanidade conhece e a única capaz de unir e fazer do Homem um Ser Divino e transcendente. O acto da entrega generosa pressupõe uma consciência fraternal difícil de encontrar no meio da floresta actual. Dedicar uma vida em benefício de outros é algo que o mundo Ocidental não consegue assimilar. Por isso, quando conhecemos várias pessoas conseguimos distinguir as que vivem um Verdadeiro Amor, plasmado num Ideal, e as que vivem um Amor de Vénus Pandemos, para si mesmas.


Enfermeira de profissão, Bernardete, ou Irmã Bernardete como é conhecida, iniciou o projecto de orfanato em 1995, altura em que Angola vivia um clima de guerra. Nesta altura, a Irmã habitava num pequeno quarto na cidade do Lubango onde, entre muitas crianças que contactava, conheceu uma menina de 4 anos abandonada na rua com um grupo de jovens portadores de deficiências mentais. Tratava-se de um exemplo, entre muitos, de uma criança que fugira de casa pois sofria de maus tratos, que ainda hoje se fazem sentir com profundos traumas físicos e psicológicos. Com 4 anos, esta criança preferiu sair de casa e refugiar-se neste grupo de jovens, desabafando com a Irmã: “os meninos normais são mal criados e pelo menos estes protegem-me”. Neste acolhimento, a Irmã iniciou o que hoje culmina num orfanato de 65 crianças e jovens com idades compreendidas entre os 4 e 24 anos, todas elas de rua ou abandonadas pelos pais à porta do lar ou no hospital.

Se no início, este acto de acolhimento foi tido como um projecto de dação aos mais desfavorecidos, neste momento, para a Irmã Bernardete, este lar figurasse como um Ideal de Vida, uma luta que todos os dias trava tendo no seu pensamento uma única ideia: como criar melhores condições físicas, morais e espirituais para estas crianças.


De enfermeira passou a comerciante pois à medida que o número de crianças aumentava a despensa, já escassa, esvaziava. Mas apesar de ter vendido os seus carros e viajar para a Namíbia a fim de comprar roupa e papel para vender, as carências continuavam. Para 53 crianças apenas podia contar com 3 beliches e um cobertor para cada 5 crianças. Perante a questão: “Nunca pensou desistir?”, a Irmã responde: “Sim, já pensei muitas vezes em escrever uma carta a desistir de tudo, porque somos humanos e o coração fica muitas vezes apertado, mas consagrei-me em prol daquele que sofre, comprometi-me e não posso voltar para trás, tenho de aguentar as consequências”.


Numa terra onde o índice de criminalidade é drasticamente elevado no seio das crianças, que a partir dos 7 anos formam bandos a fim de roubarem e quando mais velhos matarem, a Irmã refere que “apesar das crianças distinguirem o certo do errado, não conseguem estabelecer qualquer tipo de diferenciação entre o moralmente correcto ou incorrecto pois apenas lhes interessa o elementar para sua sobrevivência: a comida. A falta de preparação escolar, cívica e moral destas crianças, não as pode fazer culpadas de um aborto ou de um roubo. Com 12 ou 13 anos, elas tomam coca-cola e 4 comprimidos de quinino (substância química para tratar o paludismo) em jejum, e provocam um aborto. Rapidamente morre uma criança na barriga de outra criança”, como conta a Irmã quando se deparou com um feto de 6 meses, morto, a entupir a sanita da casa de banho do lar.


Perante isto, e todas as dificuldades inerentes à vida desta Irmã e crianças, as entidades locais e cidadãos externos conhecedores de todas estas dificuldades, assim como muitos de nós, não se interessam em ajudar e contribuir com o mínimo que seja. A saúde também surge como um dos campos mais críticos deste lar. Nenhum médico local aceita consultar quinzenalmente estas crianças sem com isso obter um retorno financeiro. Com tudo isto apenas seria necessário cerca de 20 euros por mês para estas crianças se alimentarem de carne e peixe, ao invés de batatas estragadas, arroz, farinha e salsichas, e obterem um sistema de saúde mais digno.


Desanimada, a Irmã confessa-se preocupada com o futuro das crianças pois seria necessário a existência de formação profissional no lar para que podessem ocupar-se e sobreviver. Consciente desta situação, refere mesmo que as crianças não estão preparadas para entrar na sociedade, não possuem as bases necessárias, apesar de todas elas frequentarem a escola, mas o nível de aprendizagem ser muito fraco. “O futuro de Angola está nestas crianças, em pessoas evoluídas, se isso não acontecer Angola também não evolui”.

Publicado por shabelim em 12:38:51 | Permalink | Comentários (2)